sexta-feira, 4 de maio de 2012

Imigração, inevitável e indispensável Trabalhadores agrícolas norte-africanos sazonais no Sul de França. A imigração é benéfica para a Europa, assegura um grupo de pessoas eminentes, entre as quais Joshka Fischer, Javier Solana e Timothy Garton Ash. Uma mensagem que os dirigentes europeus deveriam escutar, escreve um jornalista holandês. Em pleno debate sobre a imigração na Europa, o grupo de eminentes personalidades sob a liderança de Joschka Fischer apresentou, a 11 de maio, um relatório (“Viver em conjunto”: Conjugar a diversidade e a liberdade na Europa do séc. XXI) cuja principal mensagem é a seguinte: Se não aprender a cultivar a sua diversidade, a Europa deixar-se-á atrasar inevitavelmente no plano demográfico. Por uma simples razão essencial: sem imigração, a população ativa diminuirá em cem milhões de pessoas nos próximos cinquenta anos, enquanto a população total aumenta e envelhece. A Europa deverá, portanto, abrir-se à imigração e à diversidade na sociedade. Na verdade, não podemos pedir aos imigrantes que renunciem à sua religião, cultura ou identidade quando chegam à fronteira. Na opinião deste grupo composto por oito personalidades, entre as quais o antigo secretário-geral da NATO, Javier Solana, a antiga comissária europeia, Emma Bonino e o académico e autor, Timothy Garton Ash, também nada há de mal no facto de os imigrantes trazerem a sua bagagem cultural, desde que respeitem a lei.
O celeiro ou o deserto da Europa? No Ocidente, o estudo agroquímico das terras é a condição “sine qua non” para todos os agricultores que compram fertilizantes para enriquecerem as suas terras. “Na Roménia acontece o mesmo mas, depois da Revolução de 1989, a fragmentação das terras [que se seguiu à coletivização própria dos regimes comunistas] gerou uma situação absurda”. “Um pequeno agricultor paga a análise quinze vezes mais cara do que um grande proprietário de terras”. Assim, “apenas 25% da superfície agrícola tem estudos agroquímicos, ou seja, trata-se dos terrenos comprados pelos grandes proprietários e pelos estrangeiros que já compraram um quarto da superfície cultivável". Consequência: a terra torna-se menos fértil, empobrece. “A este ritmo, a Roménia arrisca-se a tornar-se uma terra deserta e a perder a oportunidade de ser o celeiro da Europa”.
Voltar a ser o celeiro da Europa O mercado da agricultura biológica está em grande crescimento na Europa Ocidental e os europeus ocidentais estão constantemente em rutura de stocks. Importam da Suíça todos os equipamentos necessários para fazer produção biológica em larga escala. "O cereal que produzimos aqui vinha, até agora, do Canadá, Estados Unidos e da China”, explica um alemão especialista em marketing, que se juntou aos restantes famílias e trata da venda das colheitas. “Portanto, é normal tentar produzi-los na Europa. Há perspetivas extraordinárias na Roménia, convém lembrar que este país foi o celeiro da Europa entre as duas guerras mundiais. E prepara-se para voltar a ser."

Agricultura romena cresceu 11%


É impossível atravessar a Roménia sem nos cruzarmos com esses agricultores do Ocidente que retomam a atividade agrícola neste país. Com a sua experiência e investimentos, a agricultura romena cresceu 11%, em 2011, e estamos apenas no começo. Acabaram as terras de pousio e a sensação de abandono no campo.
Os romenos vendem as suas terras por uma média de 2000 euros por hectare, um preço imbatível na UE. Os subsídios europeus são de 180 euros por hectare, metade do montante que se pode obter na Europa Ocidental. Mas a partir de 2014, a nova Política Agrícola Comum (PAC) deve pôr toda a Europa ao mesmo nível.
Para comprar terras, na Roménia, um agricultor ocidental é obrigado a criar uma empresa no país; mas, a partir de 2014, qualquer residente na UE pode adquirir terrenos diretamente. É por isso que os agricultores se estão a despachar a comprar, antes que a especulação faça subir desmedidamente os preços.
Os mais ansiosos são os suíços, que já não conseguem pagar vários milhares de euros por hectare de terra helvética. Em Firiteaz, uma pequena aldeia no Oeste, os Hani, originários do cantão de Lucerna, mudaram-se com toda a família, há uma década: pai, mãe, dois filhos e dois netos. Compraram 800 hectares.
"Na Europa Ocidental, já não há espaço para os jovens". “Aqui, podemos construir algo a partir do zero. Acho que, para nós, jovens, é muito importante criar algo novo."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

GLOBALIZAÇÃO Não é preciso ter medo da China O desenvolvimento da China, a segunda potência económica mundial, preocupa os outros grandes atores mundiais, como os Estados Unidos e a Europa. No entanto, o seu crescimento também beneficia as empresas europeias e, como o Japão nos anos 1970-1980, a China não representa uma ameaça. Desde há pouco tempo, a China é oficialmente a segunda potência económica do planeta. No segundo trimestre, o país produziu apenas um pouco mais bens e serviços do que o Japão. Só os Estados Unidos têm ainda muito melhor desempenho, mas Washington não deve ter grandes ilusões. Em 2027, a economia americana, que tem um crescimento médio de 4,25% por ano, terá também de se inclinar perante a economia chinesa, cujo crescimento nos últimos 10 anos raramente se situou abaixo dos 10%. Neste momento, o país produz cerca de 100 vezes mais bens e serviços do que em 1978. O que representa um crescimento médio de um pouco mais de 14% por ano – números que chocam a imaginação. E que até fazem medo a muitos. O maior exportador do mundo A piada ["Deus fez o céu e a terra e o resto é feito na China"] não é completamente destituída de receio. A China é, neste momento, o maior mercado automóvel do mundo. Desde o ano passado que, todos os meses, são ali vendidos mais veículos do que nos Estados Unidos. Atualmente, o país é também o maior exportador do mundo, tendo ultrapassado a Alemanha. Nenhum país compra mais aço e cobre no mercado internacional de matérias-primas e, recentemente, concluiu-se que a China consumia mais petróleo do que qualquer outro país. Em vários domínios, a China caminha implacavelmente para a posição cimeira. E, quando não dispõe da tecnologia necessária, limita-se a comprá-la, como se viu recentemente com a aquisição da Volvo pela empresa chinesa Geely. Mas haverá motivo para ter medo? Não tivemos já medo, nos anos 1980, quando a economia japonesa ganhava inexoravelmente terreno, enquanto, tanto na Europa como na América, o setor automóvel parecia ter sido riscado do mapa? A verdade é que as marcas francesas e alemãs recuperaram, reforçando os seus pontos fortes – design, tecnologia, imagem de marca – e trabalhando para melhorar os seus pontos fracos – a qualidade e a produtividade. O desafio era enorme mas as marcas europeias, em especial, saíram claramente mais fortes da luta. Um país em vias de desenvolvimento Agora, com a China, passa-se a mesma coisa. Este país inunda o mundo de têxteis, móveis, produtos eletrónicos, vestuário de desporto – tudo barato. O que não deixa de ter vantagens. Sem a China, as nossas T-shirts, os nossos sapatos de desporto e as engenhocas da Apple custariam claramente mais dinheiro. A curto e a médio prazo, devemos congratular-nos com o espantoso crescimento chinês. Sem ele, a economia mundial ainda estaria num impasse. A Organização para a cooperação e o desenvolvimento económico (OCDE) considera que a China representará este ano um terço do crescimento mundial. Para já, a produção chinesa é ainda muito complementar da produção ocidental. Os produtos que requerem muito trabalho manual relativamente simples são fabricados na China. No entanto, quando as coisas são um pouco mais complexas, a produção mantém-se no Ocidente. Mas por quanto tempo mais? Num país como a China, há todos os anos mais novos engenheiros diplomados do que nos Estados Unidos e na Europa juntos. Gigante com pés de barro É também aí que reside a grande diferença em relação ao Japão dos anos 1970 e 1980. Muito simplesmente há 10 vezes mais chineses do que japoneses e isso confere ao país um potencial muito maior do que o de qualquer outro. Contudo, não há motivo para preocupações, porque, "de outra forma, a Bélgica nunca poderia ter sobrevivido entre vizinhos poderosos e muito maiores, como a Alemanha e a França". Para já, a China é ainda um gigante com pés de barro. É verdade que, desde ontem, o país é a segunda economia do mundo – mas é também um país gigantesco. No que se refere ao PIB por habitante, verifica-se que a China figura em 127.º lugar da classificação do Banco Mundial, depois de Angola e do Azerbaijão. Por conseguinte, a China continua a ser um país em vias de desenvolvimento. Segundo os economistas, é por isso que a probabilidade de a China poder manter por muito mais tempo o ritmo de crescimento dos últimos 30 anos parece reduzida. No ano passado, algumas greves dispersas resultaram em aumentos de salários significativos. Esses aumentos fazem-se em detrimento da competitividade e, portanto, abrandam o crescimento.
Os chineses no resgate da SAAB “Os chineses disseram sim”, após o anúncio pela Spyker, a empresa holandesa proprietária da SAAB, do acordo de parceria estratégica assinado com o fabricante de automóveis chinês Hawtai. Este, prometeu 150 milhões de euros à construtora de automóveis sueca, cujos problemas financeiros se agravaram nas últimas semanas, a tal ponto que a produção foi interrompida no início do mês de abril. O acordo também prevê parcerias na produção, de intercâmbio tecnológico e de distribuição. “Esta parceria assegura-nos o financiamento a médio prazo e permite-nos entrar no mercado chinês”.
Os milhões de Pequim não têm preço “Não há muito tempo, a visita de um primeiro-ministro chinês seria sinónimo de protestos e debates sobre os direitos do Homem e a repressão no Tibete”. No entanto, “agora, a presença de Wen Jianao na Hungria, no Reino Unido e na Alemanha é vista apenas sob o prima da importância do gigante asiático para a economia europeia. E o convidado tomou mesmo a liberdade de prevenir o seu anfitrião sobre os riscos de querer impor, pelas armas, a paz na Líbia. Previdentes, na véspera da visita, os chineses libertaram alguns dissidentes, entre os quais o artista Ai Weiwei”. “Quando Wen Jiabao visitou o reino Unido pela primeira vez, em 2009, um jovem atirou-lhe um sapato durante uma conferência na Universidade de Cambridge. Hoje, dois anos e uma crise depois, Wen prometeu, em Budapeste, que a China não deixará cair a Europa, visitou uma fábrica de automóveis chineses em Birmingham como se estivesse em casa e a 28 de junho discutirá com Angela Merkel as vicissitudes do euro. Tudo isto recheado com milhares de milhões de euros de contratos.” O facto de Pequim ter comprado títulos de dívida pública dos países em dificuldades da zona euro, como a Espanha, a Irlanda, Portugal e Grécia, tal como a sua sede de tecnologia, desperta a simpatia e o sentido de negócio da Europa. Por isso, “[a Europa] está encantada por poder ajudar [a China]. Mesmo que tenha de tapar o nariz e virar as costas sempre que for necessário. A isto se chama pragmatismo, e o pragmatismo sempre existiu”