No que se refere a experimentar e inovar, é ainda demasiado cedo para se riscar a Europa. Nenhum outro continente viveu uma transformação transnacional tão radical como a decorrente da introdução do euro e do alargamento da UE à Europa de Leste, na última década.
É absolutamente natural que essa transformação tenha falhas e seja posta à prova. Portanto, continua a ser um feito o facto de o euro ter sido introduzido de acordo com o plano estabelecido e o facto de, apesar do complexo problema da dívida, cuja amplitude poucos tinham previsto, a zona euro não se ter desintegrado até agora. Isso demonstra que a Europa detém um poder político muito mais forte do que aquele que, em geral, se lhe atribui.
Tem como objectivo alertar o cidadão comum para a causa económica, que afinal determina o nosso quotidiano.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
GEOPOLÍTICA - A UE E O MUNDO
O declínio da Europa não é para já
O poder económico não é o único critério para definir o poder mundial. O que importa é a maneira como os sistemas políticos reagem às novas crises. E, segundo esta perspetiva, a UE ainda tem hipóteses.
O ano de 2011 tem tudo para ficar na História como um ano desastroso. Entre outras coisas, porque os Estados Unidos e a Europa estão risco de sucumbir sob o peso das respetivas dívidas. Neste momento, têm a reputação de maus alunos da economia mundial e recebem lições dos capitalistas de Estado da China, de diplomatas de Singapura e de economistas da Índia. Por conseguinte, não é de espantar que muitos observadores sensíveis ao sentimento dominante anunciem o fim de quatro séculos de domínio ocidental e vejam o Sol erguer-se no Extremo Oriente.
Aliás, o comportamento do Presidente norte-americano vai nesse sentido: considera que os Estados Unidos devem pôr em ordem a economia nacional, antes de se lançarem em novas intervenções no estrangeiro. Quando até o homem mais poderoso do mundo considera que Washington colocou a fasquia demasiado alta, temos tendência a concordar com o historiador Paul Kennedy (que escreveu sobre o assunto na sua obra Ascensão e Queda das Grandes Potências, de 1987), quando este diz que a América sofre de "sobrextensão imperial".
O poder económico não é o único critério para definir o poder mundial. O que importa é a maneira como os sistemas políticos reagem às novas crises. E, segundo esta perspetiva, a UE ainda tem hipóteses.
O ano de 2011 tem tudo para ficar na História como um ano desastroso. Entre outras coisas, porque os Estados Unidos e a Europa estão risco de sucumbir sob o peso das respetivas dívidas. Neste momento, têm a reputação de maus alunos da economia mundial e recebem lições dos capitalistas de Estado da China, de diplomatas de Singapura e de economistas da Índia. Por conseguinte, não é de espantar que muitos observadores sensíveis ao sentimento dominante anunciem o fim de quatro séculos de domínio ocidental e vejam o Sol erguer-se no Extremo Oriente.
Aliás, o comportamento do Presidente norte-americano vai nesse sentido: considera que os Estados Unidos devem pôr em ordem a economia nacional, antes de se lançarem em novas intervenções no estrangeiro. Quando até o homem mais poderoso do mundo considera que Washington colocou a fasquia demasiado alta, temos tendência a concordar com o historiador Paul Kennedy (que escreveu sobre o assunto na sua obra Ascensão e Queda das Grandes Potências, de 1987), quando este diz que a América sofre de "sobrextensão imperial".
CRISE DA DÍVIDA
Perante a Standard & Poor’s, “o rei vai nu”.
A degradação da nota de nove países da zona euro pela agência Standard & Poor’s apenas confirmou o que os mercados e dirigentes já sabiam há muito: as dificuldades da zona euro devem-se sobretudo às divergências entre os países-membros.
A degradação da nota de nove países da zona euro pela agência Standard & Poor’s apenas confirmou o que os mercados e dirigentes já sabiam há muito: as dificuldades da zona euro devem-se sobretudo às divergências entre os países-membros.
EURO
PACTO DE ESTABILIDADE
“Regra de ouro” deixou de brilhar
“A Regra de ouro’ deixa de ser obrigatória nas constituições nacionais”, a aplicação do princípio do equilíbrio orçamental na constituição de cada Estado-membro está prestes a ser abandonada, “embora a Alemanha ainda não esteja completamente convencida".
Apesar das intenções de Berlim, são muitos os países – por exemplo, Irlanda, Dinamarca, França – que invocaram dificuldades jurídicas ou políticas que impedem a alteração da sua constituição, pondo assim em causa a ratificação do novo pacto de estabilidade da UE. A mais recente versão do tratado, sujeita a apreciação dos funcionários nacionais em Bruxelas, a 12 de janeiro, irá garantir a cada país o direito de decidir sobre o procedimento a adotar.
As novas regras entram em vigor a 1 de janeiro de 2013. Os países da zona euro vão ficar obrigados a eliminar o défice dos seus orçamentos atuais e a garantir o equilíbrio orçamental.
Encontramo - nos "mais perto de um consenso europeu", visto que o novo tratado deverá ser aprovado até ao final do mês por todos os Estados-membros da UE, com exceção do Reino Unido:
As coisas não vão ser feitas exatamente como os alemães queriam. Uma cedência... feita em nome do objetivo principal, que é ter o novo acordo orçamental assinado o mais depressa possível. O calendário do plano alemão para combater a crise do euro exige rapidez e as novas regras ficarão inscritas em legislação permanente dos Estados-membros.
“Regra de ouro” deixou de brilhar
“A Regra de ouro’ deixa de ser obrigatória nas constituições nacionais”, a aplicação do princípio do equilíbrio orçamental na constituição de cada Estado-membro está prestes a ser abandonada, “embora a Alemanha ainda não esteja completamente convencida".
Apesar das intenções de Berlim, são muitos os países – por exemplo, Irlanda, Dinamarca, França – que invocaram dificuldades jurídicas ou políticas que impedem a alteração da sua constituição, pondo assim em causa a ratificação do novo pacto de estabilidade da UE. A mais recente versão do tratado, sujeita a apreciação dos funcionários nacionais em Bruxelas, a 12 de janeiro, irá garantir a cada país o direito de decidir sobre o procedimento a adotar.
As novas regras entram em vigor a 1 de janeiro de 2013. Os países da zona euro vão ficar obrigados a eliminar o défice dos seus orçamentos atuais e a garantir o equilíbrio orçamental.
Encontramo - nos "mais perto de um consenso europeu", visto que o novo tratado deverá ser aprovado até ao final do mês por todos os Estados-membros da UE, com exceção do Reino Unido:
As coisas não vão ser feitas exatamente como os alemães queriam. Uma cedência... feita em nome do objetivo principal, que é ter o novo acordo orçamental assinado o mais depressa possível. O calendário do plano alemão para combater a crise do euro exige rapidez e as novas regras ficarão inscritas em legislação permanente dos Estados-membros.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Todos os olhos estarão postos na Alemanha
Ainda assim, o futuro da Europa não se decidirá na periferia greco-britânica mas, como é lógico, no seu núcleo. O Governo alemão continua obstinadamente a fazer uma leitura da crise que torna impossível a sua solução, uma vez que, como ficou demonstrado, a crise exige uma alteração das normas que regem a zona euro e, muito especialmente, um novo papel do BCE e a emissão de euro obrigações.
Em Berlim, a chanceler Merkel agarrou-se conscientemente não a um mas a dois mastros: o de uma opinião pública muito reticente à união monetária e ao do Tribunal Constitucional, hostil ao projeto de integração europeia. Mas a causa das suas ações não é essa opinião pública, por trás da qual Merkel se escuda, e, sim, algo que ela própria e o seu partido estimularam, infundindo nos alemães, contra todas as provas empíricas, a convicção de que euro não só foi um mau negócio para a Alemanha mas também, como parece acreditar o seu Tribunal Constitucional, é uma ameaça para a democracia alemã.
Numa situação como esta, uma vez que o BCE mudou de rumo e decidiu salvar o sistema financeiro, todos os olhos estarão postos na Alemanha, tentando discernir em que medida Berlim continuará a liderar a Europa com base nas suas dúvidas, reticências e medos ou a partir de uma visão construtiva e a longo prazo do continente. Esqueçamos, portanto, o calendário maia: vai ser em Berlim que Cassandra se vingará ou será desmentida.
Em Berlim, a chanceler Merkel agarrou-se conscientemente não a um mas a dois mastros: o de uma opinião pública muito reticente à união monetária e ao do Tribunal Constitucional, hostil ao projeto de integração europeia. Mas a causa das suas ações não é essa opinião pública, por trás da qual Merkel se escuda, e, sim, algo que ela própria e o seu partido estimularam, infundindo nos alemães, contra todas as provas empíricas, a convicção de que euro não só foi um mau negócio para a Alemanha mas também, como parece acreditar o seu Tribunal Constitucional, é uma ameaça para a democracia alemã.
Numa situação como esta, uma vez que o BCE mudou de rumo e decidiu salvar o sistema financeiro, todos os olhos estarão postos na Alemanha, tentando discernir em que medida Berlim continuará a liderar a Europa com base nas suas dúvidas, reticências e medos ou a partir de uma visão construtiva e a longo prazo do continente. Esqueçamos, portanto, o calendário maia: vai ser em Berlim que Cassandra se vingará ou será desmentida.
Entre a espada e a parede
Do ponto de vista institucional, o edifício europeu também sofreu duramente, uma vez que a Alemanha e a França optaram por um intergovernamentalismo sem contemplações nem complexos e viraram as costas às instituições europeias (em especial à Comissão e ao Parlamento) e ao chamado "método comunitário", que, tradicionalmente, tem sido a única garantia de equilíbrio entre grandes e pequenos, ricos e pobres, Norte e Sul.
In extremis, quase no fim do ano, o Banco Central Europeu salvou a economia europeia do colapso, inundando o mercado bancário de liquidez. Ao fazê-lo, deu razão a todos quantos vinham dizendo que as pressões sobre a dívida soberana não eram a causa mas a consequência de uma crise financeira que, devido aos erros na conceção e no funcionamento da zona euro, esteve prestes a arrastar consigo a própria UE. A campanha do BCE salvou a UE, pelo menos de momento, mas não resolveu os problemas de fundo, que continuam presentes e que 2012 terá de enfrentar.
Entre eles, há a destacar a impossibilidade de criar uma barreira de segurança entre o euro e a UE, que separe o fracasso de um do colapso da outra. Por isso, quando, em 2012, gregos e britânicos voltarem à mesa das negociações, a UE estará exatamente no mesmo lugar onde se encontrava em 2011: entre a espada de uma saída da Grécia do euro, cujas consequências seriam devastadoras, e a parede de uma rutura irreversível com o Reino Unido, que ameaçaria a unidade do mercado interno e enfraqueceria a posição da UE no mundo.
In extremis, quase no fim do ano, o Banco Central Europeu salvou a economia europeia do colapso, inundando o mercado bancário de liquidez. Ao fazê-lo, deu razão a todos quantos vinham dizendo que as pressões sobre a dívida soberana não eram a causa mas a consequência de uma crise financeira que, devido aos erros na conceção e no funcionamento da zona euro, esteve prestes a arrastar consigo a própria UE. A campanha do BCE salvou a UE, pelo menos de momento, mas não resolveu os problemas de fundo, que continuam presentes e que 2012 terá de enfrentar.
Entre eles, há a destacar a impossibilidade de criar uma barreira de segurança entre o euro e a UE, que separe o fracasso de um do colapso da outra. Por isso, quando, em 2012, gregos e britânicos voltarem à mesa das negociações, a UE estará exatamente no mesmo lugar onde se encontrava em 2011: entre a espada de uma saída da Grécia do euro, cujas consequências seriam devastadoras, e a parede de uma rutura irreversível com o Reino Unido, que ameaçaria a unidade do mercado interno e enfraqueceria a posição da UE no mundo.
Demasiado pouco, demasiado tarde
Quais foram as consequências da crise do euro? A mais visível e imediata foi a devastação, em termos de emprego e prosperidade, que generalizou a desconfiança no futuro do Estado de bem-estar. A crise também pôs em causa a autoestima democrática das nossas sociedades, sujeitas a forças de mercado em relação às quais estas sentem não ter qualquer controlo. E, apesar de ser ainda cedo para se avaliar o impacto psicológico, a história diz-nos que as sociedades que têm medo e se sentem inseguras tendem a fechar-se sobre si mesmas, a recear o que as rodeia, a abrir as portas ao populismo e a sacrificar a liberdade no altar de uma maior segurança.
Igualmente importantes foram as fragilidades que a crise pôs a descoberto. A união monetária, que pretendia ser tão sólida como todos os imponentes edifícios que figuram nas notas de euro mas que não existem na realidade, revelou-se incapaz de se esquivar em condições meteorológicas adversas, como se tivesse sido concebida para navegar apenas com bom tempo.
E, ao mesmo tempo, o delicado mas imprescindível tecido de identidade sobre o qual assenta a construção europeia também se ressentiu: a solidariedade social e projeto comum, ancorados tanto numa visão do passado como na de um futuro comum, foram postos em dúvida e, até, substituídos pelos piores preconceitos e estereótipos culturais, que julgávamos terem sido superados, entre Norte e Sul, Leste e Oeste, católicos e protestantes. De tudo isto resultou uma gestão da crise dominada pelo "demasiado pouco, demasiado tarde", que manteve o euro à beira do precipício e os cidadãos à beira do enfarte, durante quase todo o ano.
Mas, atenção o perigo de enfarte para os cidadãos europeus continua latente e presente!
Igualmente importantes foram as fragilidades que a crise pôs a descoberto. A união monetária, que pretendia ser tão sólida como todos os imponentes edifícios que figuram nas notas de euro mas que não existem na realidade, revelou-se incapaz de se esquivar em condições meteorológicas adversas, como se tivesse sido concebida para navegar apenas com bom tempo.
E, ao mesmo tempo, o delicado mas imprescindível tecido de identidade sobre o qual assenta a construção europeia também se ressentiu: a solidariedade social e projeto comum, ancorados tanto numa visão do passado como na de um futuro comum, foram postos em dúvida e, até, substituídos pelos piores preconceitos e estereótipos culturais, que julgávamos terem sido superados, entre Norte e Sul, Leste e Oeste, católicos e protestantes. De tudo isto resultou uma gestão da crise dominada pelo "demasiado pouco, demasiado tarde", que manteve o euro à beira do precipício e os cidadãos à beira do enfarte, durante quase todo o ano.
Mas, atenção o perigo de enfarte para os cidadãos europeus continua latente e presente!
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