O ano de 2011 será recordado como o ano em que, pela primeira vez, a União Europeia chegou perto do abismo e disse o indizível. Para surpresa dos próprios e de terceiros, dentro e fora da Europa, precisamente no momento em que, após uma década de introspeção e divisões, a Europa empenhava - se em recuperar o tempo perdido e aspirava a ser, finalmente, um ator global, uma crise económica e financeira mundial atingiu-a em cheio e destabilizou a sua conquista principal e melhor sucedida: a união monetária.
"Se o euro cair, a Europa também cai", disseram muitos europeus para uma situação que descreveram como a "mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial". E tinham razão, porque as consequências de uma cisão do euro seriam tão profundas que dificilmente se ficariam pela moeda: teriam graves efeitos sobre o mercado interno e sobre as principais políticas comuns, incluindo a política externa, destruindo décadas de laboriosa construção europeia.
A "crise da cadeira vazia" dos anos 1960, a "euroesclerose" dos anos 1970, a sombra do declínio económico e tecnológico face aos Estados Unidos e ao Japão, nos anos 1980, o regresso dos campos de concentração e a limpeza étnica, nos anos 1990, o fracasso dos referendos constitucionais em França e na Holanda, na década passada: a União Europeia já tinha estado em crise antes, mas nenhuma delas teve um caráter existencial no sentido literal da palavra.
Tem como objectivo alertar o cidadão comum para a causa económica, que afinal determina o nosso quotidiano.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
10 anos de Euro
O dia 1 de janeiro de 2002 é, provavelmente, uma das poucas datas de que todos os adultos europeus se recordam. Nesse dia, pela primeira vez, um café numa esplanada junto ao mar passou a custar trinta cêntimos – em vez de sessenta escudos. Na cidade, todas as caixas de Multibanco foram tomadas de assalto, as pessoas corriam de um lado para o outro com as carteiras recheadas de euros acabadinhos de imprimir e descobriam com espanto as diferentes faces nacionais dos euros: aqui Mozart, ali o rei dos belgas e, além... quem será aquele espanhol? Nesse dia, 307 milhões de europeus tinham na mão uma nova moeda.
Isso passou-se há dez anos. Sendo assim, feliz aniversário, euro, congratulemo-nos e façamos saltar as rolhas das garrafas de champanhe! Acontece que o clima atual em que decorrem os preparativos para esse grande aniversário é marcado pelos receios. O Banco Central Europeu (BCE), autoridade monetária suprema da Europa, apenas previu um dia de portas abertas, "no segundo trimestre de 2012" e um concurso, aberto às escolas e denominado "Eurocorrida", entre 1 de janeiro e 31 de março. O BCE vai ainda cunhar uma moeda especial e apresenta, no seu sítio da Internet, vídeos sobre o fabrico da moeda e as características que tornam impossível falsificar as notas.
Isso passou-se há dez anos. Sendo assim, feliz aniversário, euro, congratulemo-nos e façamos saltar as rolhas das garrafas de champanhe! Acontece que o clima atual em que decorrem os preparativos para esse grande aniversário é marcado pelos receios. O Banco Central Europeu (BCE), autoridade monetária suprema da Europa, apenas previu um dia de portas abertas, "no segundo trimestre de 2012" e um concurso, aberto às escolas e denominado "Eurocorrida", entre 1 de janeiro e 31 de março. O BCE vai ainda cunhar uma moeda especial e apresenta, no seu sítio da Internet, vídeos sobre o fabrico da moeda e as características que tornam impossível falsificar as notas.
Deslocalização das empresas portuguesas para a Holanda
Mas o que atrai as empresas portuguesas para a Holanda?, pergunta o comum dos portugueses, que também dá a resposta: uma tributação mais branda, acesso mais fácil ao crédito e, neste momento, uma imagem de estabilidade que Portugal não pode oferecer.
Alarmante, mas das 20 empresas do índice PSI-20 da bolsa portuguesa, 17 já estão instaladas na Holanda. A isenção de tributação de dividendos e taxas mais baixas são razões que podem levar ainda mais empresas a deixar o país num futuro próximo.
O que custa a engolir não é que Soares dos Santos [presidente da JM] tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele.
Alarmante, mas das 20 empresas do índice PSI-20 da bolsa portuguesa, 17 já estão instaladas na Holanda. A isenção de tributação de dividendos e taxas mais baixas são razões que podem levar ainda mais empresas a deixar o país num futuro próximo.
O que custa a engolir não é que Soares dos Santos [presidente da JM] tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele.
Grécia - sair do euro uma ideia arriscada
O euro ou o dracma? A pergunta percorre a sociedade grega numa altura em que o Governo continua as negociações com a UE e o FMI para um novo plano de resgate.
"Perante este desafio – o mais importante para o país depois da queda da ditadura dos coronéis em 1974 -, devemos escolher entre tomarmos todas as medidas necessárias para permanecer na zona euro ou seguirmos num descalabro descontrolado e voltarmos, de facto, ao dracma", dizem os gregos.
Por seu lado,é também realçado que "o dilema entre o euro e o dracma não deixa ninguém indiferente. A verdade é que este dilema esconde uma grande verdade. As medidas, os planos de resgate, impostos pela UE e pelo Governo grego em nome do euro nos últimos dois anos, e tudo o que não fizemos pelo bem do país, reaproximou-nos do dracma”.
No entanto, "um regresso ao dracma empobrecerá 90% da população. Devemos, portanto, entender que, queiramos ou não, é preciso fazer tudo para permanecer no clã do euro para não nos tornarmos o vizinho pobre da ‘Grande Turquia’. Temos muito, muito trabalho, com grandes sacrifícios, mas a escolha é nossa”.
Assim falam os gregos! Espero sinceramente que não passe pela cabeça dos nossos governantes a ideia de regressar ao escudo!
"Perante este desafio – o mais importante para o país depois da queda da ditadura dos coronéis em 1974 -, devemos escolher entre tomarmos todas as medidas necessárias para permanecer na zona euro ou seguirmos num descalabro descontrolado e voltarmos, de facto, ao dracma", dizem os gregos.
Por seu lado,é também realçado que "o dilema entre o euro e o dracma não deixa ninguém indiferente. A verdade é que este dilema esconde uma grande verdade. As medidas, os planos de resgate, impostos pela UE e pelo Governo grego em nome do euro nos últimos dois anos, e tudo o que não fizemos pelo bem do país, reaproximou-nos do dracma”.
No entanto, "um regresso ao dracma empobrecerá 90% da população. Devemos, portanto, entender que, queiramos ou não, é preciso fazer tudo para permanecer no clã do euro para não nos tornarmos o vizinho pobre da ‘Grande Turquia’. Temos muito, muito trabalho, com grandes sacrifícios, mas a escolha é nossa”.
Assim falam os gregos! Espero sinceramente que não passe pela cabeça dos nossos governantes a ideia de regressar ao escudo!
Os países que têm dinheiro
A questão, portanto, é: porquê estes países e não outros? A resposta, à partida, é simples: são os que têm dinheiro. É uma questão de preço e, para colossos como o Brasil ou a China, são mesmo vendas a preço de saldo. Angola é um caso à parte, que envolve outro tipo de interesses além dos financeiros, bem como a Alemanha e o Reino Unido.
"O investimento angolano em Portugal tem uma componente política forte, como afirmação daquele país no mundo lusófono de onde no futuro espera tirar dividendos económicos".
Esta é também uma forma de legitimar os capitais angolanos, menos escrutinados em Portugal, e de entrar à boleia em outros mercados. O risco, dada a falta de transparência, é o de nunca se saber claramente qual é a identidade de quem investe. Angola investe, mas só dinheiro. Não há know-how associado.
Com a Alemanha (que concorre à EDP) e a quem o primeiro-ministro estendeu o tapete, o processo é outro. Se a este país pode interessar associar-se a Portugal em África, onde tem escassa penetração, para Portugal é um "um negócio" europeu, uma maneira de agarrar os alemães e comprometê-los com o país nesta fase difícil da crise europeia. "Portugal está refém da Europa e interessa-lhe o mais possível estabelecer ligações fora do continente para recuperar a sua autonomia".
A questão, portanto, é: porquê estes países e não outros? A resposta, à partida, é simples: são os que têm dinheiro. É uma questão de preço e, para colossos como o Brasil ou a China, são mesmo vendas a preço de saldo. Angola é um caso à parte, que envolve outro tipo de interesses além dos financeiros, bem como a Alemanha e o Reino Unido.
"O investimento angolano em Portugal tem uma componente política forte, como afirmação daquele país no mundo lusófono de onde no futuro espera tirar dividendos económicos".
"O investimento angolano em Portugal tem uma componente política forte, como afirmação daquele país no mundo lusófono de onde no futuro espera tirar dividendos económicos".
Esta é também uma forma de legitimar os capitais angolanos, menos escrutinados em Portugal, e de entrar à boleia em outros mercados. O risco, dada a falta de transparência, é o de nunca se saber claramente qual é a identidade de quem investe. Angola investe, mas só dinheiro. Não há know-how associado.
Com a Alemanha (que concorre à EDP) e a quem o primeiro-ministro estendeu o tapete, o processo é outro. Se a este país pode interessar associar-se a Portugal em África, onde tem escassa penetração, para Portugal é um "um negócio" europeu, uma maneira de agarrar os alemães e comprometê-los com o país nesta fase difícil da crise europeia. "Portugal está refém da Europa e interessa-lhe o mais possível estabelecer ligações fora do continente para recuperar a sua autonomia".
A questão, portanto, é: porquê estes países e não outros? A resposta, à partida, é simples: são os que têm dinheiro. É uma questão de preço e, para colossos como o Brasil ou a China, são mesmo vendas a preço de saldo. Angola é um caso à parte, que envolve outro tipo de interesses além dos financeiros, bem como a Alemanha e o Reino Unido.
"O investimento angolano em Portugal tem uma componente política forte, como afirmação daquele país no mundo lusófono de onde no futuro espera tirar dividendos económicos".
Reduzir a dívida
Para reduzir a sua dívida, o Governo português lançou um amplo programa de privatizações. Brasileiros, chineses e angolanos são hoje os principais candidatos à compra de empresas nacionais.
Do lado de lá estão gigantes como as estatais Eletrobras e Cemig (Brasil), a China Three Gorges e State Grid (China), ou ainda a Sonangol (Angola). Todas oriundas de países de economias em crescimento acelerado e potências emergentes. Do lado de cá, estão empresas de dimensão modesta à escala mundial, com acionistas descapitalizados, num país em dificuldade extrema, a quem um acordo de assistência financeira impôs um agressivo pacote de privatizações.
Brasil, China, Angola – e também Alemanha e Reino Unido – são os países de origem dos principais candidatos, para já, às privatizações em curso ou à venda de ações ou participações do Estado.
EDP e REN são as operações que estão em cima da mesa, mas para 2012 está prevista a privatização da Galp, TAP, ANA, CP Carga e CTT. Não por acaso, são as empresas que mais se internacionalizaram e cujo valor é realizado em grande parte no exterior que suscitam maior interesse
Do lado de lá estão gigantes como as estatais Eletrobras e Cemig (Brasil), a China Three Gorges e State Grid (China), ou ainda a Sonangol (Angola). Todas oriundas de países de economias em crescimento acelerado e potências emergentes. Do lado de cá, estão empresas de dimensão modesta à escala mundial, com acionistas descapitalizados, num país em dificuldade extrema, a quem um acordo de assistência financeira impôs um agressivo pacote de privatizações.
Brasil, China, Angola – e também Alemanha e Reino Unido – são os países de origem dos principais candidatos, para já, às privatizações em curso ou à venda de ações ou participações do Estado.
EDP e REN são as operações que estão em cima da mesa, mas para 2012 está prevista a privatização da Galp, TAP, ANA, CP Carga e CTT. Não por acaso, são as empresas que mais se internacionalizaram e cujo valor é realizado em grande parte no exterior que suscitam maior interesse
Uma Europa a duas velocidades
Emprego
"O desemprego divide a Europa em duas" que refere disparidades significativas entre a Europa do Sul e a Europa do Norte: "A Alemanha apresenta a taxa mais baixa desde 1991, enquanto a [taxa de] Espanha dispara para o máximo de cerca de 23%. E a publicação das estimativas da Comissão Europeia para a zona referentes a dezembro deverá confirmar essa diferença",que acrescenta: "Esta dicotomia europeia reflete sobretudo o estado das economias do Velho Continente. Uns mergulham na recessão (Grécia, Portugal, Espanha), os outros conseguem manter um ritmo de crescimento, ainda que modesto”.
Entre as razões do estado de saúde dos países do Norte, designadamente o Luxemburgo, a Holanda, a Áustria e a Alemanha, incluem-se as reformas do mercado do emprego realizadas antes do início da crise, que "ajudaram a tornar os trabalhadores desses países competitivos a nível internacional – um fator marcadamente ausente nos países da periferia". Nos países em melhor situação, existe uma forte tradição de exportação em setores que beneficiaram da retoma rápida das economias emergentes, após a recessão de 2009. Sem esquecer políticas de emprego específicas, como a da Alemanha, que prefere o recurso ao desemprego parcial aos despedimentos.
É precisamente esse argumento que o Tageszeitung, de Berlim, tenta desmistificar. As reformas lançadas por Berlim não criaram novos empregos: redistribuíram os empregos existentes entre um número mais significativo de trabalhadores, criando de caminho um setor de salários baixos. Assim, o TAZ refere a existência de 8,4 milhões de alemães "subempregados" e recorda que o fosso entre ricos e pobres, no país, está aumentar mais rapidamente do que nos outros países industrializados. Entretanto para comemorar o número recorde de 41 milhões de empregados, o Governo gastou recentemente 330 mil euros na campanha de cartazes com os dizeres: "Danke Deutschland – Wirtschaft. Wachstum. Wohlstand" [Obrigado Alemanha – Economia. Crescimento. Prosperidade].
"O desemprego divide a Europa em duas" que refere disparidades significativas entre a Europa do Sul e a Europa do Norte: "A Alemanha apresenta a taxa mais baixa desde 1991, enquanto a [taxa de] Espanha dispara para o máximo de cerca de 23%. E a publicação das estimativas da Comissão Europeia para a zona referentes a dezembro deverá confirmar essa diferença",que acrescenta: "Esta dicotomia europeia reflete sobretudo o estado das economias do Velho Continente. Uns mergulham na recessão (Grécia, Portugal, Espanha), os outros conseguem manter um ritmo de crescimento, ainda que modesto”.
Entre as razões do estado de saúde dos países do Norte, designadamente o Luxemburgo, a Holanda, a Áustria e a Alemanha, incluem-se as reformas do mercado do emprego realizadas antes do início da crise, que "ajudaram a tornar os trabalhadores desses países competitivos a nível internacional – um fator marcadamente ausente nos países da periferia". Nos países em melhor situação, existe uma forte tradição de exportação em setores que beneficiaram da retoma rápida das economias emergentes, após a recessão de 2009. Sem esquecer políticas de emprego específicas, como a da Alemanha, que prefere o recurso ao desemprego parcial aos despedimentos.
É precisamente esse argumento que o Tageszeitung, de Berlim, tenta desmistificar. As reformas lançadas por Berlim não criaram novos empregos: redistribuíram os empregos existentes entre um número mais significativo de trabalhadores, criando de caminho um setor de salários baixos. Assim, o TAZ refere a existência de 8,4 milhões de alemães "subempregados" e recorda que o fosso entre ricos e pobres, no país, está aumentar mais rapidamente do que nos outros países industrializados. Entretanto para comemorar o número recorde de 41 milhões de empregados, o Governo gastou recentemente 330 mil euros na campanha de cartazes com os dizeres: "Danke Deutschland – Wirtschaft. Wachstum. Wohlstand" [Obrigado Alemanha – Economia. Crescimento. Prosperidade].
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